Como não encontrei uma tela com tamanho suficiente, expandi as dimensões das laterais superiores.
Com papelão e papietagem, consegui criar uma superfície resistente para receber camadas de massa corrida, rendas, tintas e verniz.
Para o centro da tela, fiz um rosto em gesso, para destacar a pintura com relevo.
Os recortes de renda deram textura delicada e me orientaram nos contornos da base superior.
Mas o "clique" deu-se quando recordei a história de uma dessas telas.
Em visita à proprietária, fiquei feliz em ver meu trabalho na parede da sala. Foi quando soube que o quadro foi a única peça salva de um ataque em sua casa.
Todos os seus objetos pessoais, de trabalho, móveis e utensílios diversos foram destruídos após um acesso de fúria do seu ex-namorado.
Fiquei sem palavras ao ouvir tudo aquilo e ver como ela se refez dos cacos materiais e emocionais daquele triste relacionamento.
Passado o nosso encontro, não pude deixar de imaginar o que teria acontecido naquela cena, pela perspectiva do quadro, no "camarote do absurdo".
Quero acreditar que a força da intenção com a qual faço meus trabalhos, acaba se refletindo na vida de quem os pertence.
São mais do que pinturas, colagens ou costuras. Tornam-se objetos de poder.

De ser visto, mas também ter a sua própria visão.
Pensar na paisagem que nos vê, o que ela reflete quando encara nosso olhar?
O Sol representando o terceiro olho, a glândula pineal da paisagem que também nos observa.
Creio que nossas buscas também nos procuram.
Isso me fascina, levar essa ideia para minhas obras é sempre uma espécie de norteamento do meu encantamento.
Sim, pode beirar à bobice... Mas alguma vez já foi surpreendido pelo olhar que não se vê? Aquele que é feito só pra ti, num instante que não voltará mais!?
Outro dia, passando por um mendigo que dormia na calçada de uma farmácia, reparei que na sua frente, dois grandes e silencioso olhos o observavam, guardando seu sono esquecido.
Não tive muito tempo pra ficar. E não quis fotografar aquilo, não me senti digna de mais nada, a não ser seguir com uma certeza. Enquanto os olhos do mundo se voltam para o lixo, o horror e a pobreza, existem encontros como aquele.
Uma grande e belíssima borboleta parou à frente do homem, com as palmas das asas fechadas em prece, olhando aquele casulo humano, rastejante e quem sabe, ainda por ser alado.
Olha a paisagem. O que tu vês é também o que te enxerga.
Abraços, até o próximo post!
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