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Artista visual, arteira desde sempre. Amo moda, fotografia, desenho, teatro, dança. E mais tantas outras coisas, mas...Acima de tudo, amo a liberdade de ser eu mesma!!!!!

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quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Me Acolhe a Alma

Hoje trago registros de alguns acessórios com reaproveitamento de diversos materiais.
Tudo surgiu a partir de uma imagem encontrada no Pinterest, síntese de um universo:


Comecei a criar imagens, a partir dessa mesma ótica:





Gostei da brincadeira e a levei para a criação de joias.
Interessados, entrem em contato pelo almadboneca@gmail.com


















Como não podia deixar de fora, um broche em homenagem canina, pra minha querida Scully!


Abraços, até o próximo post!


terça-feira, 25 de setembro de 2018

La Loba

Passei boa parte da vida criando roupas no papel, para mulheres imaginárias (?), bonecas que nunca tive, projetos monetariamente inconcebíveis.
Com o passar dos anos da vida "adulta", adquirir bonecas tornou-se um exercício do olhar para essa infância perdida.
Quisera ter ainda todos os registros desses anos de planejamentos. Ainda hoje, sinto uma espécie de atraso, de uma longa espera por momentos que se perderam.
Porém, mesmo ainda pequena, já sabia da urgência que deveria ter, como se no fundo soubesse que a vida não poderia continuar como era, um eterno desajuste meu naquela configuração de "mundo".

Comecei a escrever pouco tempo depois de já ter estabelecido o desenho como linguagem principal. E somente depois de uma pausa, ao longo de um período de vinte e quatro anos de escrita diária, percebi o quanto o desenho, de certa forma, também foi um marcador do tempo.
Um registro daquilo que não conseguia escrever, num estado de espírito e psicológico. Do que não conseguia vestir, o que queria ver, o que sentia, o que deveria ser.
E ao mesmo tempo, um recado. Como tantos outros lembretes do tempo. "Estive aqui, pensando nisso, nesse lugar que só eu vejo e nessa lógica."
Como se os escritos fossem o verdadeiro sentido da vida, o estado "real" das coisas...
Mulheres que eu sabia conhecer. Não pensava sobre isso, mas desenhá-las me dava a certeza de saber exatamente o que sentiam, como eram e o que queriam.
Para quem os via, poderiam ser apenas desenhos ou roupas no papel. Pra mim aquilo tudo tinha vida. Eram pessoas com personalidades, desejos e identidades. Conhecia cada uma delas.
Eis algumas mocinhas salvas das pastas de lembranças:




 Lembro deste desenho acima em especial. 
Sonhei com uma mulher oriental que flutuava, usando uma incrível roupa verde em vários tons. Com bordados que mesmo no desenho, já não tinham a mesma lembrança do sonho. Seu corpo era tatuado, como uma extensão dos bordados e daquela veste volumosa que como ela, pairava lentamente no ar. Inspirada neste desenho, fiz outro aquarelado e totalmente "turbinado", com a figura humana em longos cabelos esvoaçantes de nanquim, apresentei como projeto para um desfile, convite de minha professora de desenho de moda.
Ela gostou tanto do desenho que nunca mais me devolveu, 😒 espero que pelo menos tenha guardado de lembrança esse artefato de uma vida antes da fotografia digital!😭 


Lembro ter conhecido algo semelhante, ao brincar de bonecas com uma amiga da escola.
Tudo que acontecia com qualquer uma de suas bonecas, mudava e marcava a vida delas para sempre.
De uma forma genérica, a boneca poderia ser o que quiséssemos que ela fosse. Mas ela, a boneca, tinha sua própria vida, uma individualidade marcada por ritos de passagem, assim como nós (com período escolar, namoros, casamentos, perdas e ganhos).
Até aquele ponto, aos nove anos, não tinha conseguido "viver" e projetar aqueles dilemas cruciais na vida de uma boneca Barbie.
Hoje consigo ver a verdadeira mágica daqueles momentos tão importantes que não tive por completo.
Em Pedagogia, estudei sobre a importância do brincar. Mas nunca havia feito um feedback dessa minha falta de relacionamento com o brinquedo.

Ainda criança, precisava diariamente tomar decisões importantes, que nunca pude tomar por minhas próprias bonecas!
Sobreviver foi, sem dúvidas, a maior decisão. Chegar ao final de cada dia sem lágrimas, sem sentimento de derrota, de humilhação, de vergonha, de inferioridade, de dor ou de incapacidade, era sempre a maior conquista.
Quase não dormia. Por vários fatores externos, mas principalmente por questões internas. Como se durante a madrugada, fosse preciso me preparar para o dia que viria. Cada dia, um treinamento silencioso para ser inteligente o bastante, a ponto de parecer completamente ignorante sobre a vida como ela é. Uma vida de capacidades subestimadas.
Mesmo hoje, vejo o que já me foi corriqueiro, nas vidas de outras pessoas.
"Meu marido não pode saber..."; "Meu ex não pode ver..."; "Ele precisa pensar que..."; "O pai não sabe..."; "Não conta pra ele..."
Assim começam e terminam frases ditas diariamente por muitas pessoas, que nunca perceberam ou pior, sabem muito bem tudo que estão vivendo!

Retomando a questão das bonecas (que já foi dito aqui no blog algumas vezes), o que vinha de fábrica sempre me incomodava!
As primeiras (e tardias Barbies) de infância eram todas mais baratas. O que era ótimo, ao mesmo tempo que me faziam nunca esperar pelo melhor. Pois sabia que seriam de uma linha "praia". Sem sapatos, sem vestidos, com uma coloração marrom alaranjada de bronzeamento artificial.
A solução era recorrer à roupinhas de lojas de R$ 1,99 (no tempo em que esse valor não era apenas um termo). Costuras e retalhos eram sempre bem-vindos, evidenciando o que seria minha própria vida: Se quiser algo, faça por ti mesma!
Um período de muitas faltas, fez me voltar para as sobras. As lacunas não eram mais medidas por preços, mas os valores de cada momento aproveitado.

Tudo isso para introdução do assunto passado, as "modinhas" das minhas atuais bonecas.
Pocahontas foi personagem que marcou esse período de transição, entre faltas e negligências.
Ela era linda! Uma índia guerreira uma deusa, uma louca, uma feiticeira que inspira gerações ainda hoje.
Com o tempo aprendi que sua vida, pra lá de romantizada, de nada lembrou as cores do vento ou do lobo uivando para a lua azul...Como nenhum outro filme idealizado pela Disney e outras companhias cinematográficas.
Até então, nenhuma novidade nisso. Mas o fato dessa e de outras mocinhas terem recebido vidas próprias, longe das tragédias que as originaram, levam essa essência feminina para um outro nível perceptivo.
Viram arquétipos. Não mais suas humanidades, mas suas próprias divindades.
Conhecer as obras de Clarissa Pinkola Estés foi peça fundamental durante minha redescoberta por bonecas. Seus significados e importância histórica, religiosa, artística e social, parte fundamental na construção de nossa identidade e busca por ancestralidade.

Poder ter uma amostra representativa dessa mulher forte e que literalmente, corre com os lobos, foi um convite à mudança de percepção. 
Não só no sentido superficial da confecção de uma vestimenta, mas no sentido espiritual, de reconhecimento deste objeto de crescimento pessoal, vulgarmente chamado por brinquedo.
Quis vesti-la como a própria nação Powhatan, paramentada de roupas e utensílios em sua indumentária. O que também foi uma forma de calçar com conforto minha criança do passado

Abaixo, o trecho de um dos contos trazidos por Clarissa, base para a criação da nova roupa da minha Pocahontas.
Assim como algumas imagens inspiradoras buscadas na web, que me ajudaram a dar o "clima" da costura.













O vestido foi feito com partes de um sutiã e de um veludo que eu adoro, sobra de uma encomenda.






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As botas, feitas com retalhos de outro trabalho.



E o poncho, (que cresci chamando de pala), foi o que sobrou da memória de ema blusa versátil que fiz, com o tempo virou vestido. 



As franjas foram o único material que comprei, para finalizar as aplicações.
O brinco, feito com peças de um brinco mesmo e o lobo, feito com o pedaço de um coelho de pelúcia.
Embora a imagem da pele de lobo sobre a cabeça da boneca possa chocar, amei a ideia. Lembrar que cada animal morto pelos povos indígenas, cumpria sua missão.
 Eram vistos como irmãos e para honrá-los, suas peles, penas, garras ou crânios eram expostos como adornos. Um sinal de proteção e força, mortes eram vistas como rituais para uma nova vida.
Assim como algumas antigas tribos de povos canibais, comer a carne do seu semelhante, era ter em seu próprio corpo, parte da coragem do guerreiro que partiu.
Talvez a humanidade nem seja mais o que é hoje, se houver um tempo em que amor, respeito e sabedoria não sejam mais chamados de "cultura primitiva".







Antes e depois.








Abraços, até o próximo post!