Quem sou eu

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Artista visual, arteira desde sempre. Amo moda, fotografia, desenho, teatro, dança. E mais tantas outras coisas, mas...Acima de tudo, amo a liberdade de ser eu mesma!!!!!

Oi, meu nome é Daniela Karg, bem vindos ao meu blog!

Reunindo minhas linguagens, que transitam pela moda, maquiagem, teatro, fotografia, dança e artes visuais, criei a Alma de Boneca!

Confecciono bonecas, acessórios e fantasias exclusivas, combinando minhas técnicas e elementos vindos de histórias (contadas por quem as encomenda e minha imaginação).

Conheça meu trabalho e fique à vontade, entre contos, sonhos e poesias que costuro em minha ALMA!

APRECIADORES

sábado, 17 de dezembro de 2011

Leituras das minhas férias forçadas!

Seguindo minhas leituras do livro Trem-Bala, da Martha Medeiros, divido
 dois textos que gostei muito, acompanhados de
 um vídeo que eu adoro, acredito que ilustra bem esse post!
 
 O JOGO DA VELHA

Andei sublinhando dezenas de trechos interessantes do livro Mulheres que
correm com os lobos, da psicanalista Clarissa Estés, que me foi
presenteado por nada menos que Lya Luft. Ainda vou falar muito sobre o
livro e suas idéias a respeito da mulher selvagem, mas hoje me concentro
num assunto que já foi abordado por outros autores e que sempre me
deixou com a juba eriçada.

"Se uma mulher conseguir manter o dom de ser velha quando jovem e jovem
quando velha, ela sempre saberá o que vem depois". A frase está lá na
página 52, completamente integrada ao texto, mas mesmo sozinha faz todo
o sentido, ao menos pra mim, que nasci com 100 anos e venho regredindo
desde então.

Desacato não era o meu forte na adolescência. Por fora, parecia com
qualquer garota da minha geração, mas por dentro era morfética. Lia 24
horas por dia, principalmente sextas e sábados à noite. Obediente. Cdf.
Quase moralista. Não jogava vôlei, mas era craque na ioga. O apelido de
um namorado meu era Cabeça, daí você imagina como a gente se divertia
juntos.

Hoje olho para as garotas que debochavam do meu jeito cavernoso de ser e
adivinhe: estão domesticadas e usam meia-calça branca, como boas mães de
família. Tomaram juízo.

Não estou sozinha na contramão: muitas de nós têm a mesma história pra
contar. Mulheres que, quando meninas, rezaram pela cartilha da
reverência, da ordem e progresso, do abafamento do instinto, e que só
através desse aprendizado é que formaram a base e a estrutura necessárias
para contestar o estabelecido e reinventar-se. Ao observar os desenhos
de Picasso quando jovem, ficamos surpresos com seu academicismo, com seu
domínio de anatomia, com a obediência dos traços. Leva tempo até a gente
poder trocar olhos e bocas de lugar, fundando um estilo e uma regra
próprios.

Ainda sobrevivem, no entanto, aqueles que acham que o tempo de rugir é a
juventude, ficando para a meia-idade e a velhice o tempo de perder os
dentes. Contesto, meritíssimo. A juventude é um receptor de emoções
originais, mas também de preconceitos herdados. A juventude é barulhenta,
quando deveria ser astuta. É estabanada, quando deveria ser observadora.
É arrogante, quando deveria ser humilde, e deveria idolatrar menos os
Kurt Cobains da vida que elegeram como lema "viver dez anos a mil" e que
hoje estão a sete palmos da terra. Há tempo de sobra para ser jovem mais
tarde, quando temos mais autonomia e menos medo da verdade.

Julho de 1999

***

ILHA DOS LOBOS

Mulheres que correm com os lobos, livro da psicanalista Clarissa Estés,
que já citei nesta coluna, aborda um tema que não só mulheres, mas
homens também, defrontam-se diariamente: as conseqüências da
domesticação. Diz o livro que nossa grande tarefa é decidir sobre o que
devemos deixar viver e deixar morrer dentro de nós. Levando-se em conta
que nascemos com uma carga considerável de selvageria em estado bruto, o
dilema estaria em desenvolver as qualidades que nos possibilitam
interagir civilizadamente em sociedade, sem perder os instintos com os
quais nascemos e que nos persomificam.

"Não importa onde estejamos, a sombra que corre atrás de nós tem
decididamente quatro patas". Clarissa Estés conclui assim o prefácio do
seu livro, fazendo os leitores salivarem diante do que vem pela frente.
E o que vem não é uma historinha sobre Tarzan, Mogli ou Rômulo e Remo, e
sim a história de todos nós, nascidos na selva de concreto, onde há leis
bem estabelecidas e punições para quem não as obedece. Leis que não
estão escritas em lugar algum, que foram sancionadas pelo inconsciente
coletivo e que estimulam a parecência de todos. No entanto, "aproximar-se
da natureza instintiva não significa desestruturar-se, não significa
perder as socializações básicas ou tornar-se menos humana. A natureza
selvagem possui uma vasta integridade".

Homens e mulheres são convidados a deixar morrer, dentro de si, uma
libido que, normalmente, é livre e abrangente. Deixamos morrer, também,
uma curiosidade por trilhas vicinais que nos tentam e nos assustam,
sobrando como opção o caminho já desbravado pelos outros, devidamente
asfaltado e sinalizado. Deixa-se morrer a fome pelo novo, a coragem para
enfrentar dificuldades, os sonhos aparentemente inacessíveis. Dia após
dia, civiliza-se o lobo dentro de nós.

O grande desafio é conseguir fazer boas opções na vida sem alienar-se. É
seguir os rituais comuns a todos os seres de duas patas, sem que seja
preciso amputar as outras duas, pois só elas conhecem o caminho que leva
à liberdade e ao instinto, dois lugares que não precisamos freqüentar
com assiduidade, mas que é bom saber onde ficam, para o caso de um dia
precisarmos voltar para buscar a parte de nós que deixamos para trás.

Agosto de 1999 
 
Abraços, até o próximo post!

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